Você já ouviu alguém falar: “Isso aqui só presta se for feito no tucupi de verdade!”? Ou então viu alguém se emocionar ao ver uma tapioquinha com coco saindo da frigideira numa banca de rua? Se sim, você provavelmente está em Santarém — ou é um santareno vivendo longe e morrendo de saudade de casa.
A comida aqui não é só sabor: é identidade, é lembrança, é afeto. Enquanto o Brasil inteiro conhece o açaí de um jeito, o santareno faz questão de dizer: “Esse aí é o do Pará ou é o de verdade?”. A seguir, te levo numa viagem pelos sabores que definem quem somos. Mas aviso logo: esse post pode causar fome e saudade ao mesmo tempo.
1. Tapioquinha com coco (ou com manteiga, se for raiz)
Em Santarém, a tapioca não é só um “snack fitness”. Ela é ritual, é aconchego, é lanche de feira e café da tarde em família. Aqui, a tapioca tradicional — feita com a goma fresca e assada direto no ferro — ganha vida com coco ralado na hora, aquele úmido e adocicado que só se acha nas feiras da cidade.
Tem ainda os que preferem com manteiga derretendo por cima, ou os corajosos que pedem com molho de pimenta e tucupi. Se você cresceu em Santarém, sabe que a banca da Dona Maria na esquina vendia a melhor do bairro, e que tapioquinha boa mesmo, é feita com carinho e fogo baixo.
“A tapioca daqui não tem comparação. Em São Paulo eu tentei explicar pra uma amiga e ela me trouxe um negócio recheado de frango com cream cheese… quase chorei.” – Depoimento de um santareno expatriado.
2. Tacacá: quente, ácido, picante e absolutamente viciante
Tacacá não é comida. É experiência sensorial. Um cheiro forte que sobe na feira, um vapor no rosto, o sabor ácido do tucupi, o formigamento da goma e o choque de calor no meio da tarde.
Quem não é da região até estranha: “sopa quente no calor de 38 graus?”. Mas quem é de Santarém sabe que tacacá se toma de tarde, em pé, e com calma, cuidando pra não deixar a goma escorregar do palito de tucumã.
Tacacá bom leva jambu de verdade (aquele que adormece a boca), camarão seco (não economiza!) e tucupi bem azedo. É o tipo de coisa que, uma vez no sangue, vira necessidade. Não é raro ver santareno em outros estados importando tucupi e jambu só pra “matar a vontade”. Já vão me desculpando pela "sopa".
3. Maniçoba: o feijão-preto das festas paraenses
A maniçoba é o prato que exige tempo. Tempo de preparo, tempo de cozimento (7 dias, dizem), e tempo pra explicar pra quem nunca comeu: “é tipo feijoada… só que feita com folha de mandioca cozida até perder o veneno”.
A folha da mandioca-brava, depois de cozida por dias, vira uma pasta escura e rica, que recebe carnes salgadas, charque, calabresa, orelha, pé, costelinha… tudo junto, como uma sinfonia de sabores da Amazônia.
Em Santarém, ela aparece principalmente nas festas de família, no Círio de Nazaré ou em aniversários grandes. Comer maniçoba é sinal de festa. E preparar uma, é quase uma prova de amor (e paciência).
4. Pirarucu de casaca: o nobre da culinária do rio
Pirarucu, o “bacalhau da Amazônia”, é um dos peixes mais emblemáticos da região. Quando salgado e desfiado, ele ganha um lugar de honra na mesa santarena: o pirarucu de casaca.
Feito em camadas: banana da terra frita, farinha, cheiro-verde, ovos cozidos, lascas de pirarucu e, por cima, aquele azeite de urucum ou manteiga de garrafa. É prato de respeito. Costuma ser servido em datas especiais, como Páscoa e fim de ano.
Para quem cresceu por aqui, é sinônimo de fartura. E pra quem é de fora, é sempre um “primeiro choque” — porque comer peixe salgado com banana e farinha? Depois da primeira garfada, você entende.
5. Açaí “de verdade” – com peixe frito e farinha
Se você ainda acha que açaí se toma com granola e banana, a gente precisa conversar. Em Santarém (e em todo o Pará), açaí é comida, não sobremesa.
Servido gelado e sem açúcar, o açaí aqui acompanha peixe frito (de preferência, charutinho), farinha de tapioca ou de macaxeira. É o almoço de muita gente no calor de meio-dia. E é um costume que santareno leva pra vida: onde estiver, vai procurar um jeito de comer açaí salgado.
A textura é diferente, o sabor é forte e o ritual é sagrado. Tem gente que mistura tapioca direto no açaí. Outros preferem comer tudo separado. Mas uma coisa é certa: não se brinca com o açaí do Pará.
🍴 Comida como identidade
Esses pratos não são apenas receitas — são parte da alma santarena. Estão presentes nas nossas memórias, nas nossas celebrações, nos encontros de fim de tarde e nas saudades quando estamos longe.
Santarém é uma terra onde os sabores têm história, e onde comer é uma forma de se conectar com o lugar, com a gente e com os outros. Por isso, toda vez que você sentir o cheiro do tucupi subindo, ou ouvir o estalo da goma na frigideira, saiba: você está em casa.
